Tuesday, July 30, 2013

Os rostos da República: Fernando Pessoa (10)



Quem era Alberto Caeiro? O  autor de “O Guardador de Rebanhos”, heterónimo de Fernando Pessoa, “nasceu” a 16 de Abril de 1889, numa homenagem a melhor amigo de Pessoa: Mário de Sá-Carneiro.
O nome Caeiro é Carneiro sem a carne, dado a um "pastor cujas ovelhas foram espiritualizadas em pensamentos” até porque “A minha alma é como um pastor” e “o Rebanho é os meus pensamentos”. O seu amigo do zodíaco era Sá-Carneiro.

Sá-Carneiro suicidou-se antes de completar 26 anos e Alberto Caeiro também morreu jovem, com 26 anos, de tuberculose (a doença que inquietava Pessoa desde a infância, por razões familiares).
Pessoa escreveu sobre ambos “Morre jovem o que os Deuses amam”. Pessoa concebeu Alberto Caeiro como o poeta da Natureza, além de ser um vanguardista multifacetado, cuja “morte” prematura leva Pessoa a transferir as ambições futuristas para Álvaro de Campos., como um rebento de Alberto Caeiro, a partir de 1914.

A relação entre os dois heterónimos reflecte-se nos nomes (Alberto e Álvaro), com semelhança fonética, alem de Álvaro vir dos campos onde Alberto guardava os seus rebanhos imaginários.

Álvaro de Campos nasce em Tavira, em 1890, estuda engenharia naval em Glasgow, viaja pelo Oriente, viveu alguns anos em Inglaterra, onde cortejava rapazes e raparigas por igual, até se fixar em Lisboa.

Dos seu s primeiros poemas, o destaque vi para a Ode Triunfal que celebra as máquinas e a idade moderna com fôlego exuberante.
Com o passar os anos, os poemas de Álvaro tornam-s mais curtos e melancólicos “Na passagem das horas”...

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis, ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo".

O que hoje podemos escrever sobre Álvaro e Alberto foi impossível até 1924. Se é verdade que Álvaro teve projecto mediática imediata, só neste ano se conheceram o Alberto e o Ricardo Reis.

Campos assinava cartas para jornais, dava entrevistas e entrava em polémicas, opondo-se muitas vezes às teses do seu criador (Pessoa). Álvaro Campos era tão “real” que intervinha na vida diária do seu criador, substituindo-o em alguns encontros com Ofélia Queiros que não gostava nada do engenheiro nem em pessoa (ou melhor, “em Pessoa” nem nas cartas que dele recebia (cf. ZANITH, Richard, op.cit. pp. 99-108).

Os directores da Presença (Gaspar Simões e José Régio) ficaram desgostosos quando foram ao café Montanha, em Junho de 1930, na expectativa de conhecer o seu mais ilustre colaborador e quem apareceu não foi Pessoa mas o engenheiro Álvaro de Campos. Mera brincadeira ou mecanismo de defesa de Pessoa inseguro perante pessoas desconhecidas? Álvaro de Campos existia para alem das páginas por si escritas.

Vamos ao terceiro heterônimo: Ricardo Reis, que surge uns dia apos Campos, na personagem de medico que Pessoa define como “Horácio grego que escreve em português”.

Reis era especialista em odes métricas sem rima sobre a futilidade da vida e a necessidade de aceitar o destino, muito contrários, à partida, ao espírito inovador do Álvaro e do Alberto. 

No entanto, este “portuense nascido” em 1887, denotava atenção ao renascimento italiano que revalorizava o legado cultural da antiguidade. Como o apelido sugere é monárquico e tem de exilar-se no Brasil, deixando-nos milhares de papeis com poemas e textos soltos.

O intersecccionismo é um movimento literário de vanguarda criado por Fernando Pessoa e que se caracteriza pela inclusão alternada no poema de vários níveis simultâneos de realidade: a interior e a exterior, a objectiva e a subjectiva, o sonho e a realidade, o presente e o passado, o eu e o outro (cf. GUIMARÃES, Fernando - O Modernismo Português e a sua Poética , Lello, Porto, 1999, pp.71-72).

O poema "Chuva Oblíqua", de Fernando Pessoa (in "Orpheu" n.º 2, 1915), é o exemplo mais significativo deste novo processo, porque nele se cruzam a paisagem presente e ausente, o actual e o pretérito, o real e o onírico:

"Ilumina-se a Igreja por dentro da chuva deste dia
E cada vela que se acende é a chuva a bater na vidraça..."

No entanto, os três heterônimos são a expressão do “sensacionismo”, um movimento nascido do interseccionismo, que Pessoa define: “Caeiro tem uma disciplina: as coisas devem ser sentidas tais como são. Para Ricardo Reis, as coisas devem  ser sentidas, não só como são, mas de modo a integrarem-se num certo ideal de medida e regra clássicas. Em Álvaro de Campos, as coisas devem ser simplesmente sentidas”. 
Este último é quem melhor exprime o sensacionismo mas cabe a Caeiro chefiar o movimento... em 1916.

O sensacionismo deriva de três movimentos: do simbolismo francês, do panteísmo transcendental português e "da baralhada de coisas sem sentido e contraditórias de que o futurismo, o cubismo e outros quejandos são expressões ocasionais, embora, para sermos exactos, descendamos mais do seu espírito do que da sua letra" (cf. PESSOA, Fernando - Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, Lisboa, Ática, pp. 134-138). 

Para este movimento, a única realidade em arte é a "consciência da sensação" e baseia-se em três princípios artísticos: 1) o da sensação, 2) o da sugestão, 3) o da construção" (id. ibid., pp.134-138).


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