Monday, September 17, 2012

Os rostos da República: Manuel Cerejeira (10)


A questão da viagem papal à Índia constitui um marco revelador do afastamento do Vaticano face à política colonial de Salazar e do distanciamento progressivo em relação ao regime por parte de muitos católicos que engrossavam a “frente nacional”.

Em Outubro de 1965, mais de cem católicos redigem um manifesto dirigido à Conferência Episcopal contra a política no Ultramar e a invocação do nome de Cristo para servir de capa a um “nacionalismo exacerbado e a atitudes totalitárias que repugnam à consciência cristã”.

De facto, a atitude de Cerejeira perante a guerra colonial ficou definida no início do conflito em 1961, ao manter o silêncio sobre a detenção em Março do Vigário geral da diocese de Luanda, Mendes das Neves, acusado de ser o “chefe da organização responsável pelos actos de terrorismo”, assim como a deportação sob prisão de nove padres angolanos, entre os quais Joaquim Pinto de Andrade.

Ele, “nunca fez ouvir a sua voz para condenar a guerra colonial” (cf. Arquivo PIDE/DGS) limitando-se aqui e além a criticar a falta de financiamento do ensino católico nas colónias.

A este manifesto associa-se o episcopado de Angola com uma pastoral em meados do ano seguinte, num mês de Maio em que a repressão se abateu sobre estudantes universitários de Lisboa e sobre a Sociedade Portuguesa de Escritores que acaba por ser encerrada quando é atribuído o seu premio literário ao angolano Luandino Vieira, preso pela Pide.

Os silêncios do Cardeal Cerejeira perante o exílio imposto ao bispo do Porto e a sua inércia diante das perseguições movidas à população discente das escolas católicas mereceram violenta crítica em cartas de Cunha Leal ao Patriarca (cf. Diário de Lisboa, 13.12.1965).

Com o termo do Concílio Vaticano II surge em Portugal, em 1966, um breve Movimento de Resistência Cristã que congrega vultos como António Alçada Baptista, Bénard da Costa, numa altura que o Governo continuava a mostrar quem mandava ao vetar o nome de António para novo Bispo da Beira proposto pelo Papa. Também Manuel Falcão, Bispo de Beja, foi impedido de ser cardeal ou “sequer bispo de uma qualquer diocese” enquanto Salazar fosse presidente do Conselho, como escreveu Franco Nogueira na sua obra já aqui citada.

Foram também razões políticas invocadas para fechar a cooperativa católica Pragma, tendo os seus dirigentes sido presos porque alegadamente difundiam “ideias dissolventes e possuíam na sede panfletos do PCP e discos antipatrióticos”.

O ano seguinte, 1967, antevia-se importante para o regime por causa da visita do Papa a Fátima, a convite do episcopado português, mas Paulo VI – o Papa que Salazar assegurara que “nunca entraria em Portugal enquanto fosse vivo” – não aceita aterrar em Lisboa nem pernoitar em Portugal.

Salazar aceitou as condições papais mas ficou agastado, sempre aproveitou todos os momentos para tirar proveito político da visita oque deixa muitos católicos desiludidos, especialmente pela condecoração ao director da PIDE, Silva Pais.

Com 38 anos de patriarcado, o cardeal Manuel Cerejeira entende que é chegada a hora de um balanço, reconhecendo que o caso do Bispo do Porto abriu uma “larga ferida na consciência católica”.
O opúsculo mereceu palavras pouco elogiosas e até “desdenhosas” de Salazar que qualificou o “livrinho” de “defensivo e sem coragem para contra-atacar", da parte de um “fraco que nunca teve a coragem de castigar alguém”.

Raúl Rego respondeu ao balanço de Cerejeira mas este foi apreendido nas livrarias e o autor foi preso, tendo sido libertado a pedido de Cerejeira, por intermédio de Moreira das Neves. Também o bispo do Porto lhe lembrou o Te Deum na Catedral do Porto para assinalar um facto histórico discutível, “numa Sé ocupada num país ocupado”.

Cerejeira não acusou a recepção desta Carta de D. António Ferreira Gomes que atribuía a crise da Igreja lusa “às cuidadosas ausências do presidente do Episcopado e sobretudo às suas presenças onde não eram devidas” (cf. FERREIRA, António Gomes, in Carta ao cardeal Cerejeira, Lisboa Ed. Dom Quixote, 1996).

A contestação a Gonçalves Cerejeira alastra como uma “mancha de óleo” na década de 60, primeiro por inspiração em Ferreira Gomes, depois pela abertura do Vaticano II, cuja presença do Bispo do Porto foi difícil de gerir pela diplomacia portuguesa. 
Nuno Teotónio Pereira, António José Martins e Alçada Baptista são nomes que abalam a “cumplicidade Salazar-Cerejeira” e aceleram o crepúsculo do Cardeal.

O último ano de Salazar no Poder foi também um annus horribilis para Cerejeira, a completar 80 anos. Teve de enfrentar as duras críticas de Raul Rego e D. António ferreira Gomes e de cada vez mais sacerdotes rebeldes e lidar com a crescente hostilidade dos católicos perante a guerra colonial. 

Anunciava-se, em 1968, o crepúsculo da dupla de «amigos» que marca a vida portuguesa durante quatro décadas.

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