Saturday, November 7, 2009

Franceses em Braga há 200 anos (23)


Na passagem das tropas francesas pelo Minho há 200 anos, Portugal foi o primeiro território de afrontamento entre dois grandes líderes militares europeus, antes do encontro final de Waterloo. Todos esquecemos que o "peso da mochila do soldado é incomparavelmente mais leve que o peso das algemas do escravo".

Como foi possível isto ter acontecido? Como foi possível sabendo nós que os "soldados portugueses vão a toda a parte e combatem quem se quiser, marcham sujeitos às maiores fadigas, sem um murmúrio, e vivendo apenas de pão e água com um dente de alho de condimento"?

A desorganização do Estado era quase perfeita, derivada de posições contraditórias dos conselheiros do rei, D. Pedro, aconselhado a fugir com a família real para o Brasil. A preparação da fuga foi uma enorme trapalhada a tal ponto de Junot, desesperado, ainda poder avistar os barcos em fuga, quando chegou a Lisboa.

A 24 de Novembro de 1807, Junot já estava em Abrantes, quando os conselheiros reais ainda o julgavam em Salamanca, enquanto o general Tarranco ocupava o norte do país. os dias seguintes foram de completo desvairamento na Corte.

A fuga da família real resultou numa confusão indescritível, levando a que se perdessem muitos bens se preparassem mal os navios que sairam no dia 27 de Novembro, com cerca de 13 mil pessoas.

Uma delegação da maçonaria antecipava-se e ia abraçar Junot a Sacavém, acolhendo-o como libertador e foi o que se viu.
A resistência popular logo se começou a organizar perante a inoperância da Corte e dos que viviam à sua sombra, quando Junot enviava os melhores soldados para combater em França, e ganha novo impulso quando os franceses hasteiam a bandeira de FRança no castelo de S. Jorge e arreiam a Nacional.

De Madrid vinha uma preciosa ajuda no ano seguinte e em trás-os-Montes, o General Sepúlveda dava o primeiro grito pela independência de Portugal. que ecoa em todo o país e perguntava a todos os portugueses: porque não resistimos?

Hoje, podemos perguntar: porque nunca se encarou seiamente a hipótese de resistência e se optoupela fuga?

Basicamente, a resposta encontra-se na falta de liderança, na situação política, na confusão ideológica, na traição de muitos e no medo de alguns acomodados.

D. Pedro não tinha estatura moral, intelectual e psicológica para assumir qualquer liderança nacional: era um pau mandado numa altura em que se exigia decisão, audácia. exemplo, força de vontade. O futuro rei era tíbio, indeciso, sem astúcia, mal aconselhado e dominado pela mulher de quem se veio a afastar depois.

Daí resultou a ausência de uma linha de actuação política, com objectivos definidos e estratégias claras para os alcançar. A economia, a diplomacia, as forças armadas e as informações estavam desarticuladas por causas ideológicas enraizadas nas ideias da revolução francesa. A massa cinzenta dividiu-se entre os ideais franceses e os interesses da aliança inglesa: o 'partido' dos interesses portugueses baqueou, numa altura em que psicologicamente se pensava que as tropas de Napoleão eram invencíveis e o medo se apoderou de muitos.

Nesta confusão ideológica, alimentada pelo medo, todos esqueceram um direito e um dever de cidadania: resistir a quem nos assalta a casa (portuguesa) é uma questão de princípio e uma questão de honra.

A resistência reforça a coesão de uma nação e a alma de uma nação "tempera-se" nos actos praticados em comunidade em momentos difíceis. A resistência ao ladrão garante os nossos direitos e aumenta a autoridade noral.

Na história de Portugal há muitos momentos de resistência: quem consegue fazer as Linhas de Torres, em 1810, com 108 fortes, 151 redutos e baterias e guarnecê-las com 68 mil homens e mais de mil peças de artilharia também teria conseguido organizar a defesa de Portugal em 1808.

Quem possui um punhado de pescadores — como os de Olhão — que atravessa o oceano num pequeno barco de pesca para ir ao Brasil dar a notícia da expulsão dos franceses, não pode encolher os ombros quando invadem este país.

Se Napoleão afirma que a melhor infantaria de toda a Europa é a portuguesa, como se pode entender que Portugal não tenha resistido? Ninguém deu a ordem. É essa ainda hoje a nossa maior fragilidade.

As lições das invasões francesas, infelizmente, não foram apreendidas. Eis algumas delas: um exército não se improvisa do dia para a noite, as ideologias nem sempre se coadunam com a matriz nacional, as leis devem ser adequadas às pessoas a quem se aplicam, o desenvolvimento sustentado é preferível para não se gastar mais do que o que se produz, pois quando dobramos a cerviz, mas depressa mostramos o fundo das costas.

Como há 200 anos, Portugal resiste em aprender a saber estar, a saber fazer e saber prever.

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